Para que te lembres.

Passaram-se uns anos, e ainda te estou a ver da mesma maneira que estavas no primeiro dia em que me esbarrei em ti.
Miúda, inconstante e incoerente.
Com o mundo aos pés, e com os pés tão pouco assentes na terra.
Cheia de sonhos, de manias, de tiques e de relíquias, que por muito que tenha tentado, não encontrei em mais lado nenhum.
Sempre achei que eras daquele tipo de mulheres, que te tinhas cruzado comigo para me testar como homem.
Até que ponto, conseguiria eu estar ao pé de ti, sem perder os meus poucos dois dedos de testa?
Soube que os tinha perdido, no dia em que te decidiste afastar do meu caminho.
O meu caminho, que nunca deixei ser nosso.
Eu nunca fui normal, nunca fui comum, tu sabes... aquelas merdas todas que deram origem a que te apaixonasses por mim.
Roubei um pouco de ti ao passar pela tua vida, e não sei se será motivo de orgulho, ou de vergonha.
Mas o mesmo que te roubei, tu roubaste-me.
Ficámos assim os dois, depois de nos termos perdido, dois corpos meios vazios.
Dois corações, meio cheios.
Não nos tocamos há anos, não te sinto há anos, não tropeçamos no corpo um do outro há anos.
E mesmo assim cá estou eu, num dia sem nada para me lembrar, em que a única coisa que me vem à memória, são as sombras do teu corpo e o balançar do teu gemido.
Não te sei dizer, quantas vezes te quis escrever.
Quantas cartas comecei e nunca acabei.
Começar qualquer coisa para ti, foi sempre admitir que te amei, e que talvez ainda te ame.
Acabá-las, nunca esteve dentro de mim.
Nunca consegui fechar o livro da nossa história de amor, por muito que tenhas seguido o teu caminho, e feito o que sempre te disse para fazeres.
Tentares ser feliz.
Nunca fomos felizes juntos.
E sempre fomos infelizes separados.
E nas mais pura e crua das verdades, nunca quis que fosses feliz.
Quis que o fosses comigo, em noites mal dormidas e em sonhos mal sonhados.
Imaginar-te a seres feliz, a esqueceres o meu nome, ou o que passámos, mesmo que pouco dentro do tempo que nunca foi nosso, era admitir que afinal, nunca precisaste de mim.
O tempo passou sem nos dar hipóteses de passarmos dentro dele.
Nunca te tive como te quis, e muito menos tu me tiveste como sonhaste nos dias em que passei pela tua vida.
Mas sempre te quis escrever, e talvez hoje seja o dia certo para isso.
Não sei em que merda vá isto resultar, mas está na altura de admitir o quanto te amei.
Mesmo que tenham passado anos, mesmo que te tenhas apaixonado outra vez, ou até que te tenhas esquecido de mim.
Tenho que voltar a nós, porque nos poucos dias em que volto, a morte volta-me a soar bem.
Já não tenho muito a perder, pouco a ganhar.
E hoje em dia, acredito que perdi um dos poucos ganhos que me deram.
Tu.
Desde que perdemos contacto, que a vida passou normalmente.
Lembrei-me de ti todos os dias, mas cada dia menos que o anterior.
É triste de se dizer, mas o tempo apagou o teu jeito de menina e vontade de viver do meu corpo.
Talvez tenha sido uma defesa que arranjei para te pôr para trás, ou talvez esteja só a ficar mais velho.
A vida passou, e provou-me que conseguimos viver sem um grande amor.
Nunca mais voltamos a ser os mesmos.
Há sempre pedaços daquilo que podíamos ter sido em todas as esquinas que cruzei, desde que nos perdemos.
Vi-te em praias, vi-te em luas, vi-te em manhãs, vi-te em multidões cheias de gente, e mesmo assim tão vazias.
Vi-te a dançar, vi-te em miúdas em concertos, vi-te em bebidas, vi-te em cigarros e em garrafas.
Vi-te em noites de fado, em filmes sem sentido, em conversas que não me apeteceu ficar, e em noites que me deitei sozinho.
Tu sabes, sozinho.
Escreveste-me tantas cartas quando eras nova, bonita e cheia de coisas aos pés, e eu escolhi hoje para te escrever uma.
Mais velho, menos bonito, e sem chão.
Ficámos tão longe um do outro durante tanto tempo, que nem parece que te vivi.
Eras quase como que uma história.
Li-te em segredo, e foi sempre nesse segredo, que me lembrei do que poderíamos ter sido.
Já distante da verdade do que um dia fomos, esbarrei-me em ti.
Estávamos no mesmo espaço, na mesma data e na mesma hora, num sítio que nos era indiferente e sem lembranças nossas.
E do nada, quase que como nos filmes, ouvi-te a rir, da mesma maneira que te riste antes de me teres conhecido.
Lá estavas tu, tão diferente, com a tua postura independente, com o teu rabo de cavalo mal feito e a tua voz.
A tua voz, que por muito que tente, nunca me saiu da cabeça.
Estavas tão bonita.
Se os anos passaram por nós, então passaram só para nos quebrar.
Nada em ti mudou.
O olhar perdido, o sorriso sem motivo, o andar trocado e a força em te destacares, mesmo sem quereres.
Não te via há anos.
A última vez que te vi, eras uma miúda.
Foi numa tarde de inverno, chovia lá fora e chovia dentro de nós.
Sabíamos os dois que era a última vez que nos íamos ver.
E enquanto eu te tentava magoar para tu me deixares de querer, tu fazias-me querer-te ao te mostrares magoada.
Entre soluços e "engasgos" nas palavras, fizeste-me prometer que um dia, eu iria até ti e que íamos ficar juntos.
"Passe o tempo que passar", disseste tu, "promete que me vens bater à porta. Nem que seja só para te bater com ela de volta na cara."
Eu prometi.
Embora nunca o tenha feito.
Mas sonhei tantas vezes com isso, meu amor.
Eu de malas na mão, a tocar-te à porta.
Nunca o consegui fazer, nunca soube até que ponto me querias.
E o que soube, sempre me assustou.
Hoje, estou-te a escrever para te dizer que ainda te amo.
Não sei se a morada é a mesma, se ainda sentes da mesma maneira, ou se te lembras de tudo o que me escreveste quando o teu coração, ainda só tinha sido partido por mim.
O tempo passou, e de que maneira.
Passou ao ponto de te teres apaixonado, e por muito bonita de costas que me tenhas parecido, nunca te chegaste a virar.
Se eu te ouvi, tu nem deste por mim.
E lembras-te, lembras-te como dizias que "Eu sei que estás a chegar, antes de estares perto de mim."
Ficaste parada, imóvel.
E talvez tenha sido a vida, a dar um fim ao amor que nos sempre ligou.
A dar-te a vantagem no jogo.
A dizer-me "Não, deixa-a ir. Deixa-a ficar de mão dada, ao lado de alguém, que não sabe quem vocês os dois foram."
Voltei para casa nessa noite, tudo continua na mesma.
Eu estou mais morto por dentro.
Tu estás mais viva por fora.
Estás cheia de luz, e pela primeira vez, não a passaste para mim.
Fiquei incandescente, e assim que me afastei do que poderia ter sido o nosso reencontro, as coisas perderam ainda um pouco mais a cor.
E quase a dormir, quase a acabar esta carta, quase sem forças por me lembrar a força que tens em mim, quero-te dizer, que continuo a ouvir vozes.
A tua, repetidamente a perguntar-me "Amanhã, ficas?".
A minha, a dizer-me para mim mesmo, "Porque é que não ficaste?".
E a do Diabo.
Que me disse ao ouvido ontem à noite, que o amor falhado é o melhor veneno para se ter nas veias.

Comentários

  1. "E quase a dormir, quase a acabar esta carta, quase sem forças por me lembrar a força que tens em mim, quero-te dizer, que continuo a ouvir vozes.
    A tua, repetidamente a perguntar-me "Amanhã, ficas?".
    A minha, a dizer-me para mim mesmo, "Porque é que não ficaste?".
    E a do Diabo.
    Que me disse ao ouvido ontem à noite, que o amor falhado é o melhor veneno para se ter nas veias."
    Lindo, Ines Alegre.

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  2. Gostava de te ouvir falar ao vivo sobre amor.

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  3. Porque é que escreves como se fosses um homem? (e é com boas intenções, porque realmente são muitos bons estes tipos de textos teus)

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  4. Sem palavras para o teu talento, és brutal

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Perdi a conta da quantidade de vezes que li este texto. E não houve uma única que vez que não me arrepiasse ou não deixasse cair uma lágrima. Está fantástico, dos melhores. Tens um talento incrível Inês, continua a escrever, porque estamos todos ansiosos para o próximo!
    PS: Estou à espera de um livrooo!
    Um grande beijinho e os meus sinceros parabéns, és espetacular

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  7. Estou tão apaixonado por esta miúda...

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  8. Parece que só sabes falar da tua obsessão sobre o amor. Agora até o diabo te segreda ao ouvido. Não te trates e vais ver. Já falas em morte. A coisa é grave. É só pimbalhada para os bimbos!

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    1. Isto é um blog sobre amor e relações. Se existe coisa que esta miuda nao é é pimba. mt provavelmente nem entendes nada sobre metaforas. mas isto tb n é para qql pessoa, por isso sim, dá-me mais desse pimba ines!! está LINDO! e continua a falar da morte, da vida, de traições, de mentiras, de gente louca e sem nada a perder, pq é assim que gostamos de ti!
      go girl!

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    2. Eu gostava muito, (mas mesmo muito) de te explicar as coisas de forma a que compreendesses.
      Infelizmente, da mesma maneira que o "Diabo" me segreda à noite, eu não consigo manter diálogos com alguém que se coloca em anónimo e chuta duas ou três conclusões azeiteiras.
      Para alguém que não escreve, que não cria, é fácil cair no erro de criticar e não compreender o verdadeiro sentido das palavras.
      É óbvio que eu não falo com o Diabo à noite, e o falar da morte vem na sequência do texto que muito possivelmente, nem te deste ao trabalho de ler.
      Se preciso de me tratar por escrever desta maneira, então quase todos os escritores precisam de ser internados.
      E não é que eu não precise, mas duvido que a Sophia de Mello Breyner tenha mesmo conhecido uma Fada Oriana numa floresta, se conheceu imagina bem a moca com que estava.
      Podia-te dar outros milhares de exemplos, mas não me parece que lá chegues.
      No entanto, falar de morte, do Diabo, ou do quer que seja, fica ao meu critério.
      Se me devo tratar ou não, não sei, mas senão gostas do que escrevo, a solução é fácil.
      Não me leias.
      Em relação ao pimbalhada para bimbos, quem precisa de esconder a opinião atrás de um comentário anónimo és tu, e não eu.
      Fica bem e sê feliz.

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    3. Há gente tão ignorante meu deus

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  9. Aqui está alguém que eu adorava um dia conhecer. Fantástica

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  10. Lindo texto, parabéns! É fantástica a maneira como escreves.

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  11. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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    1. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  12. Este é o meu texto favorito, de sempre. Mesmo 3 anos depois de o escreveres, 3 anos depois de o ter lido pela primeira vez, continua a tocar-me tanto, é irreal. Identifico-me muito com vários textos teus. E o teu livro... está de outro mundo. Só te tenho a agradecer. Por escreveres tão bem e partilhares isto connosco.

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