Floripes

Tenho tantas saudades tuas, foi assim a forma mais simples que encontrei de começar esta carta.
Foste-te embora há quase três anos, e nunca consegui falar disto da mesma maneira que falo de coisas tão banais.
Talvez falar sobre ti é compreender que já não estás cá, e eu gostava que as coisas tivessem sido diferentes.
A minha avó Floripes cresceu numa família muito, muito pobre.
Era a rapariga mais bonita da aldeia dela, e apaixonou-se pelo meu avô ainda em criança.
Viveram a história de amor mais simples, aquela que andamos todos à procura.
Que nem sempre se dão bem, que não acordam todos os dias com vontade de se amarem, mas que ficaram ao lado um do outro, porque de certa forma, o tempo fez deles um só.
Eram lindos juntos, de mão dada, a passearem no meio de casais da nossa idade que não sentiam nem um pouco do amor que eles tinham um pelo outro.
Foi o único homem que teve, que amou, e dos filhos que tiveram eu vim por acréscimo.
Sou neta única, e embora ela tenha vindo de uma família muito pobre, foi estudar, atravessava montes cheia de frio, para ter a certeza que um dia, alguém iria-se orgulhar dela.
E aqui estou eu, portanto, pronta e cheia de vontade de chorar ao falar de uma mulher, que nunca muita gente há-de conhecer.
Mas eu conheci, o sangue dela corre-me nas veias e foi nela que encontrei o conforto da minha vida.
E se este blog serve de alguma coisa, então gostava que as pessoas que me lêem e gostam de mim, compreendessem que eu sou o que sou, muito devido a esta senhora.
Somos a cara chapada uma da outra, tínhamos um feitio muito diferente, porque eu sou claramente a fotocópia que nasceu cinquenta anos depois.
Ó avó... pudesses estar aqui e ouvir o que te tinha para dizer.
As saudades do teu sorriso, do teu cheiro, de me deitar em ti e chorar horas a fio porque nunca veio julgamento da tua boca.
Com o teu ar calmo, dizias-me sempre que ia ficar tudo bem.
Que eu era muito bonita para estar triste.
"Inês, amanhã vai ficar tudo bem, e se não ficar, vai ficar no dia a seguir."
Querias que me casasse, querias pagar-me o casamento e encher-me de vontade de ser feliz.
E eu disse-te sempre que não o iria fazer, com medo de ser como os meus pais.
Acalmavas-me sempre e dizias-me que já tinha o doutoramento, e que iria escolher alguém que me amasse para sempre, como o avô te amava (e ama).
Se nunca me quis casar, sabendo que não cá estás, muito menos o quero.
Disse que te amava num lanche, poucos meses antes de te ires.
Tu olhaste-me com o teu sorriso, e disseste-me de volta "eu amo-te como nunca amei ninguém".
Nem entendi na altura se te estavas a despedir de mim, as tuas falas já se tornavam confusas mas caí num pranto e abracei-me a ti a chorar.
Tenho tantas saudades tuas.
Tantas, dava metade de mim para te ter aqui hoje.
Desculpa-me as vezes que não atendia o telefone, ou que te levantei o tom de voz em discussões parvas.
Tu fizeste o melhor que sabias, e eu era só uma adolescente parva.
O meu coração parte-se ao lembrar-me das vezes que me ligavas para te ir ver, porque tinhas saudades minhas.
Eu dizia-te que só tinha passado uma semana, o que era uma semana?
Eu sabia lá que não ias estar cá muito mais tempo.
Pagaste-me a licenciatura e nunca me viste licenciada, deitei todas as minhas fitas fora e não fiz festa nenhuma.
Que merda de celebração iria ser essa, se nem te ia ver a sorrir para mim?
O meu sorriso, o único que fazias quando me vias de braços abertos.
Gostavas do pai, e o pai nem era teu filho, mas por tanto veres o quão o amava, amaste-o também em segredo.
Nunca mais quis saber de festas de família, evitei meses entrar em tua casa, o teu quarto nunca mais lá pus os pés.
E às vezes, inventei desculpas para não te ir ver no estado em que estavas.
Já não sabias quem eu era, já não te lembravas dos meus sonhos nem das nossas conversas, não falavas nem abrias os olhos.
Lembras-te quando disse num almoço em família que queria ser escritora?
Todos se riram menos tu.
Passaste-me a mão na perna, pediste-me para ir para a Universidade e no fim disseste "Mas que te vou ver em montras, eu vou!".
Fui para a Universidade por ti.
Mas nada restou no fim.
Nem sonhos, nem amor, nem memórias.
Não reconhecias o avô, nem a vida que passaram juntos.
E a história de amor que vocês tiveram!!!
O avô colou poemas datados em todas as paredes do teu quarto horrível de hospital, na esperança que quando acordasses, soubesses que ele esteve sempre lá a olhar para ti.
Mas tu nunca acordaste.
Nunca vais saber sequer o quanto chorámos, te amámos, o quanto sofremos diariamente por te termos deixado ir, sem dizer o maior obrigada que conseguíamos.
E às vezes eu penso, o quão egoísta sou.
Ou no monstro que também me tornei, porque sei que ao contrário, estarias a meu lado todos os dias numa cama de hospital.
Mas eu não consigo.
Sou muito fraca, ou então torno-me muito forte, na ideia que não quero guardar de ti.
Nunca vais conhecer os meus filhos, não vais saber que me voltei a apaixonar nem vais ver a minha casa.
Não vais saber quem é o Nuno, ver a Benedita, não me vais ver em montras nem entender no que me tornei.
Nunca vais saber o nariz empinado e orgulho próprio que me ensinaste a ter.
No dia que estavas no hospital, já a perder a consciência de quem eras, eu disse-te que te ia amar para sempre.
Despedi-me de ti sem te aperceberes sequer, e tu, já quase só corpo e lembranças, disseste-me que também me ias amar para sempre.
Guardo isso como a nossa última lembrança.
Foi sempre assim, era sempre eu com o meu feitio de merda, a receber amor e amor a dobrar.
Acordaste uma única vez no hospital, no dia de anos da mãe.
Parecia uma prenda vinda sei lá de onde, tudo para voltar a sentir-te a perder força.
Tu foste a minha mãe também, minha querida avó Floripes.
Tornei-me numa melhor pessoa desde que te foste, porque sinto que tenho obrigação disso.
Sinto que tenho que te deixar orgulhosa, seja lá o lugar em que estejas agora.
Muito mais que deixar orgulhosa os meus pais!
E digo sem vergonhas, és o motivo pelo qual me levanto todas as manhãs e tento ser melhor que ontem.
És tu que me fazes amar as pessoas que não conheço.
Passaste esse coração enorme, e vontade de ensinar e ajudar toda a gente, para as minhas veias.
Ninguém sabe a dor que é, nunca mais ter recebido um telefonema teu.
Às vezes dou por mim a tentar ligar-te.
Nunca mais me atendeste.
Nunca apaguei o teu número, nunca apaguei nada teu.
Estás viva em mim, muito mais do que quem me rodeia.
Deste-me vida, deste-me rios de amor, deste-me mais do que devias.
O que sou hoje, devo-te a ti.
E espero que no dia em que nos encontrarmos, estejas nova, bonita, sem tubos ou nódoas corpo a baixo meu amor.
É que tu eras linda, e é assim que te vejo.
E que possamos ir beber uma cerveja juntas!
Que te possa admitir que gosto de rock, de tatuagens, que fumo e bebo às vezes.
Que o homem que gosto não bate bem de todo, mas que gosta tanto de mim que o consigo ver junto de mim como te via com o avô.
A vida NUNCA mais vai ser a mesma, mas pelo menos, tive o orgulho de dizer, que fizeste parte de mim, que vim de ti, e que metade de ti, viverá eternamente em mim.
E nos meus filhos, nos filhos deles, e em todos os que virão a seguir.
Amo-te eternamente.
A tua Inês.



(escrito dois meses antes de a minha avó falecer)

Comentários

  1. O amor é impossível de explicar.
    Perdi o meu avô há quase um mês (faz agora diz 27), subitamente.
    Nunca me despedi dele, e acho que a última coisa que lhe disse foi que o gato do vizinho estava no parapeito da varando (o quanto não gosto de gatos). Podia ter dito até amanhã e fechava a porta, como sempre fiz, mas o gato tinha de estar lá. Podia ter almoçado com ele e não o fiz.
    O meu avô foi-se embora e não volta. Como quero que ele volte, como tenho saudades dele e a falta que me faz !
    Ajudou a pagar parte da minha licenciatura, ainda por terminar (estou no segundo ano), e agora não me vai ver licenciada.
    Queria casar, e agora que ele não vai lá estar, não sei se sou capaz de fazer.
    Pagou-me a carta de condução e foi a primeira pessoa que me deu a chave de um carro para a mão com a máxima confiança.
    Foi um homem que aprendeu a fazer tudo depois da morte da mulher, que morreu nem um ano depois da filha casar. A minha mãe, filha única, é agora orfã, aos quase 46 anos.
    No velório, pus-lhe uma lembrança minha e da minha irmã no bolso do casaco, para cuidar de nós, mas porque também levou uma grande parte de mim.
    O meu avô morreu e eu não sei se ele sabe o quanto gosto dele, e o quanto ele significava para mim.
    Quero que tudo isto seja um sonho, e quero o meu avô de volta.

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